O tema das apostas online entrou na campanha presidencial de 2026 pela porta principal. Em debates, entrevistas e programas eleitorais, quase nenhum candidato com expressão nas pesquisas conseguiu escapar da pergunta: o que você vai fazer com as bets?
As respostas revelam um espectro amplo — da proibição total declarada como “primeiro ato de governo” à regulação com tributação mais pesada, passando pela proposta de banir apenas a publicidade do setor. O que chama atenção, no entanto, não é só a divergência entre os candidatos. É a distância entre o que cada um propõe agora e o que o setor realmente precisa — independentemente de quem estiver no poder.
Este artigo não recomenda voto nem defende nenhum candidato. O objetivo é outro: mapear o que está sendo proposto, contextualizar com o histórico de cada um e, ao final, apontar o que o mercado regulado deveria exigir de qualquer governo que assumir em 2027.
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O que cada candidato a presidência em 2026 propõe sobre as bets
Lula (PT) — Regulação que virou proibição de campanha
O governo que regulamentou o setor com a Lei 14.790/2023 chegou à campanha de 2026 com um discurso quase oposto ao que praticou. “Se depender da minha vontade pessoal, nós acabamos com as bets”, disse Lula em podcast. Em outra entrevista, foi mais longe: “Eu proibiria todas. Mas eu não sou dono do Brasil.”
Na prática, o governo Lula estuda uma medida provisória para restringir as apostas, articula o tema entre os ministérios da Fazenda, Planejamento e Justiça e, em agosto de 2026, a SPA determinou a suspensão de sites de seis operadoras por descumprimento regulatório. O foco declarado é saúde pública — as apostas compulsivas como problema social, especialmente entre mulheres e jovens.
O contraponto que circula nas redes é legítimo: a bancada do PT votou a favor da Lei 14.790/2023 em 2023, com o líder do partido atuando ativamente na aprovação. Em abril de 2026, dois deputados do mesmo partido protocolaram um projeto para revogar essa mesma lei. É uma evolução de posição que o próprio debate público tem questionado.
Flávio Bolsonaro (PL) — Proteção aos beneficiários, sem posição definida sobre o resto
O plano de governo do PL propõe impedir o uso de recursos do Bolsa Família e do BPC em bets — medida que, na prática, já está em vigor desde outubro de 2025. O vice Alfredo Gaspar foi explícito sobre a posição da chapa: Flávio “ainda não tem uma posição definida sobre a proibição total”, mas defende revisão da regulamentação existente, descrevendo a situação atual como “fora de controle”.
O PL não protagonizou nem a aprovação nem a contestação formal da Lei das Bets em 2023-2024, o que deixa a chapa em posição de relativa neutralidade histórica — mas também sem proposta concreta além do ponto já implementado sobre benefícios sociais.
Ronaldo Caiado (PSD) — Rastreamento financeiro e fim da publicidade
A proposta de Caiado é a mais articulada tecnicamente entre as que não passam pela proibição total: usar o Coaf e a Receita Federal para rastrear o fluxo financeiro das bets e banir completamente a publicidade do setor em redes sociais e veículos de comunicação em massa. “É parte do meu plano tomar medidas iniciais para conter o processo publicitário exaustivo que está levando as pessoas a essa prática”, declarou o candidato em evento do setor de serviços.
Quando perguntado diretamente sobre proibição total, Caiado evitou responder — posição mais cautelosa que a de Zema e Renan, mas ainda claramente crítica ao setor.
Romeu Zema (Novo) — Banimento total como “primeiro ato”
A posição mais radical entre os candidatos com representação relevante nas pesquisas. Zema declarou que “acabar com as bets” seria seu primeiro ato como presidente, classificou o setor como uma “praga” e um “câncer” e comparou o vício em apostas ao consumo de cocaína.
Vale registrar um detalhe apontado por veículo especializado do setor: em declaração pública, Zema afirmou que as bets pagam “apenas 12% de imposto”, quando a alíquota sobre o GGR é de 13%, além dos outros tributos que incidem sobre qualquer empresa brasileira — um erro técnico que não invalida a preocupação com o setor, mas coloca em questão a profundidade do diagnóstico que embasa a proposta.
Há também uma tensão histórica relevante: o Partido Novo ajuizou no STF a ADI 7721 contra a Lei das Bets em 2024, mas com argumentação técnica de viés liberal — crítica à outorga sem licitação, não defesa da proibição por danos sociais. O discurso de 2026 é substantivamente diferente da ação judicial de 2024.
Renan Santos (Missão) — “As bets serão destruídas”
A frase foi dita em coletiva após almoço com empresários na Faria Lima, em São Paulo: “As bets serão destruídas no meu governo, não vai ter bet, não vai ter esse crédito consignado fácil comendo o salário das pessoas.” Em debate da Unecs, classificou as apostas como “uma droga pior que o crack”.
O Partido Missão foi criado apenas em 2025/2026 e não tem histórico de votação sobre a Lei das Bets. A proposta de banimento total é vinculada exclusivamente à candidatura de 2026.
Augusto Cury (Avante) — Tributação elevada como desincentivo
Entre os candidatos com proposta específica, Cury é o único que não fala em proibição — defende tributação muito mais alta sobre as operadoras como mecanismo de controle. “As bets vão ter que ser altamente regulamentadas, inclusive com impostos muito altos, para inibir isso, para que o dinheiro que poderia beneficiar a sociedade brasileira não vá para essas empresas.”
É uma proposta de mercado — usa o preço para desincentivar o consumo sem banir o produto —, ainda que o impacto real dependa de como e em que nível essa tributação seria calibrada.
Pablo Marçal (PRTB) e demais candidatos
Marçal não apresentou declarações públicas específicas sobre regulação, taxação ou proibição das bets como política de governo. Seu nome aparece nas notícias muito mais associado a mercados de apostas sobre sua própria candidatura do que a propostas sobre o setor.
Os demais candidatos — Clariana Barão (DC), Wilson Grassi (Democrata), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Samara Martins (UP) — não apresentaram posições identificáveis sobre bets nas fontes disponíveis até a publicação deste artigo.
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Eleições 2026 e a ausência de propostas contra o mercado ilegal e clandestino de bets
Olhando o conjunto das propostas, há um padrão que vale nomear: quase todos os candidatos com posição clara sobre bets estão falando de proibição ou restrição severa — e quase todos usam argumentos de impacto social legítimos (endividamento, compulsão, vulnerabilidade de beneficiários) para embasar propostas que, na prática, atacam o setor regulado e deixam o mercado ilegal intocado.
Nenhum candidato apresentou, até agora, uma proposta articulada de combate às plataformas que operam ilegalmente no Brasil — sem licença, sem recolher tributos, sem qualquer obrigação de proteção ao jogador. São essas plataformas que oferecem os bônus inflados que as reguladas não podem igualar, que não obedecem às regras de publicidade, que não têm SIGAP e que não devolvem tributos à sociedade.
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O que o mercado regulado deveria cobrar de qualquer governo
Independentemente de quem ganhar, há uma agenda mínima que o setor regulado tem legítimo interesse em ver implementada — e que, ao mesmo tempo, é a agenda que protege de fato o consumidor brasileiro.
Combate efetivo ao mercado ilegal
A Anatel intensificou o bloqueio de domínios irregulares, mas o mercado paralelo segue ativo. Qualquer proposta séria de proteção ao consumidor passa por fiscalização mais eficaz de plataformas não autorizadas, não só por restrições às que já cumprem as regras.
Políticas de proteção ao jogador que funcionem
O SIGAP — Sistema de Autoexclusão — existe, e as operadoras licenciadas são obrigadas a respeitá-lo. Mas ferramentas de proteção precisam de estrutura para funcionar: campanhas de informação, acesso facilitado ao sistema de autoexclusão, suporte a jogadores em situação de risco.
Estabilidade regulatória
Um ambiente onde as regras mudam conforme o ciclo eleitoral não atrai investimento sério. Operadoras que fizeram apostas de longo prazo no mercado regulado brasileiro — pagaram licenças, adaptaram plataformas, contrataram equipes de compliance — precisam de um horizonte estável para planejar. Isso é bom para o negócio, mas também é bom para o Estado, que recebe tributos de operadores que existem de forma duradoura.
Publicidade responsável com regras claras
O episódio da CazéTV e as portarias que vieram depois mostraram que o setor pode avançar com regras mais claras de publicidade sem precisar de proibição total. As novas regras atualizadas pelo Conar estabeleceram esse piso. Cabe ao próximo governo manter e aprimorar esse arcabouço, não descartá-lo.
Educação financeira e prevenção
Nenhuma regulação substitui a informação. Campanhas sobre os riscos das apostas, integração do tema na educação financeira e suporte a pessoas em situação de vulnerabilidade são políticas de prevenção que qualquer governo pode implementar independentemente da posição sobre o setor.
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As eleições presidenciais de 2026 irão refletir no futuro e estabilidade do mercado de apostas
As bets viraram pauta de eleição porque afetam a vida de milhões de brasileiros — e isso é legítimo. O setor cresceu muito rápido, nem sempre com as melhores práticas, e os problemas sociais que a campanha expõe são reais.
Mas, a resposta certa para problemas reais não é necessariamente a mais simples. Proibir um setor regulado sem fortalecer a fiscalização do ilegal, sem estrutura de proteção ao jogador e sem política de prevenção é apostar contra o consumidor — não a favor dele.
O mercado regulado tem interesse legítimo nesse debate. E tem responsabilidade de fazer parte dele — não para defender seus próprios lucros, mas para mostrar que regulação bem feita protege mais do que proibição mal executada.
O próximo governo vai definir o ambiente em que o setor de iGaming vai operar nos próximos anos. Quem atua nesse mercado — operadoras, agências, fornecedores — tem o direito e a obrigação de participar desse debate com dados, argumentos e propostas concretas.
Porque no fim, o que está em jogo não é só uma regulação. É quem vai definir as regras do jogo.
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